Viver é quase um jogo
Um mergulho no infinito
Se souber brincar com fogo
Não há nada mais bonito
(Paulo Ricardo)

“PODE ESPIAR À VONTADE".. quando ouço o apresentador Pedro Bial dizer isto em uma das chamadas da Rede Globo de Televisão, não tenho dúvidas que, entre tantos brasileiros, sou mais uma a ficar “ligada” nas edições do Big Brother Brasil: uma novela da vida real em formato de reality show... Afinal ser curioso já está no sangue dos seres humanos - principalmente quando o assunto é a vida alheia - e este é um dos fatores que levam o programa a fazer tamanho sucesso, há oito anos consecutivos. Nos meses de janeiro à abril, desde 2002, nos são apresentados personagens como: estudantes, profissionais liberais, modelos, artista plástico, dançarino de axé, socialite, jovens com visual estilizados, representantes da raça branca e negra, homens e mulheres, belos e de corpos sarados, os denominados “pobrinhos” e "riquinhos", enfim... um enredo completo com faixa etária predominante entre 18 à 35 anos, com raras exceções, em busca de fama e dinheiro.
É justo ir em busca de fama e dinheiro se está coerente com a aspiração e à necessidade de cada um, num reality? Sim, e neste “jogo” onde a vida imita a arte ou vice versa, apesar da aura de realidade, os "personagens" selecionados (por seus perfis) "se sujeitam" através de um contrato a interpretarem papéis mais ou menos pré-definidos pela produção durante às edições, ou seja, eles já não são apenas eles próprios porque também interpretam a si mesmos, o que é bem diferente. Vide o mocinho, a donzela, a carente, o malvado, o ignorante, a sensual, o arrogante, a mal-educada, o inteligente, a doente, o pegador e outras tantas caracterizações sustentando conflitos enquanto geram identificações por parte do público e vão carregando assim as edições da trama.
O certo é que o brasileiro gosta mesmo é de ver em suas “novelas” um bom conflito amoroso e o encontro entre casais. Este modelo de reality show permite que a imaginação do público acompanhe durante o tempo de confinamento o envolvimento entre os participantes, criando a chamada “exposição de privacidade”. Em outras palavras, o romance bem ou mal resolvido, o sofrer por gostar ou não, o clima de harmonia ou não.. é uma das fórmulas geradoras do sucesso e que provocam torcidas constantes do público. Bem como a traição, que - não só quem comete mas quem é traído - encontrará identificação entre os telespectadores. Em uma pesquisa recente, aqui no Brasil, avaliou-se que 60% dos homens e 40% das mulheres são infiéis.
Porém, o certo é que dentro da casa e participando do jogo, sob os olhares e julgamento das pessoas que convivem ou "espiam" o desenrolar do programa, os 'brothers' se vêem, algumas vezes, vivendo de acordo com parâmetros morais diferentes daqueles que adotam na vida real.. E, por razões que alavancam a audiência ou que os permite através da exposição sobressaírem-se em relação ao grupo, aparecem para o público, no “jogo”, criando essas expectativas através do envolvimento - o que não significa que os relacionamentos estabelecidos lá dentro sejam necessariamente falsos, ainda que namorar seja uma estratégia para se dar bem - porque muitos acabam se gostando mesmo, de verdade. No jogo, tanto produção quanto participantes contam com a possibilidade de tudo ser natural e facilitado pelo fato de simplesmente se gostarem, e é bem interessante observar num breve olhar e sorriso e que pode tornar-se intenso à medida em que a permanência no confinamento for se prolongando, independente de relacionamentos pré existentes, pois assumir ou não já é uma outra questão. Aliás, assumir este gostar "ao simples cruzar de olhares", como já aconteceu durante as diferentes edições do programa, nos traz lembranças à mente e um doce questionamento:
“AMOR À PRIMEIRA VISTA”, mas isto existe? É real?

Pesquisadores da Universidade de Ohio (EUA) afirmam que amor à primeira vista pode não ser uma exclusividade de românticos irrecuperáveis, onde segundo eles, os encontros-relâmpago existem sim e podem ser verdadeiros. (Alguns, da montagem, que o digam!) Aliás, o estudo mostra que neste caso, as pessoas não querem perder tempo e a decisão sobre a relação ocorre rapidamente. Quando se fala em sentimentos fica difícil estabelecer regras e certezas, embora reconhecendo que “PAIXÃO E AMOR” são diferentes. O que caracteriza a paixão é a intensidade, o imediatismo e a proximidade. Ela prescinde o amor, pois é um sentimento de encantamento e de êxtase que nos deixa enfeitiçados, vulgo “tomados” mesmo. Enquanto o amor vem após a paixão... como se a paixão fosse o clímax da agonia da Fênix e o amor a sensação de renovação ao renascer das cinzas.
O fato de surgirem romances durante o tempo de confinamento já é algo esperado pela grande maioria dos que assistem ao programa ou acompanham as edições. Após acontecer o primeiro olhar ou beijo, perceberem ou não a “sintonia” entre os participantes, surgem diferentes teorias em relação ao sentimento revelado, como: “são almas gêmeas, é amor de outras vidas, nasceram um para outro” ou "não tem nada a ver, é só carência, sacanagem"... E as torcidas por vê-los juntos ou não se inflamam e muitas vezes extrapolam, se projetam na relação existente entre os participantes e perdem o limite do respeito pelo direito de escolha de cada um.
Segundo pesquisas realizadas sobre, a paixão tem uma duração que varia de 18 a 30 meses após início de uma relação. Para a psicóloga “Isabel Menéndez”, quando se está apaixonado a pessoa identifica no outro o ideal de amor onde entram em jogo as reações bioquímicas. "Dizer-se" apaixonado é o que acontece com alguns dos participantes em todas as edições do programa mas devemos considerar as condições psíquicas em que ocorreu a sensação desse sentimento. Hoje já é aceito por profissionais da área da psicanálise o que chamamos de “síndrome do confinamento” pois a participação em um Big Brother, requer e mobiliza demais as próprias emoções. A sensação de pressão ali dentro precipita o estresse e podem ocorrer reações físicas, emocionais e comportamentais também em qualquer um dos participantes, ou seja, o sentir-se "APAIXONADO” é algo provocado muitas vezes pela própria situação. Ou não. Há que considerar-se também que cada caso é um caso e cada um é um...
A característica dada ao Big Brother é negada o tempo todo pelos integrantes do mesmo que, na pressão, sofrem por sentimentos ambivalentes, esquecem que estão participando de um jogo, que o investimento é a exposição da sua privacidade e acreditam que todo envolvimento será facilmente levado para vida 'fora da casa' onde a realidade que os espera é totalmente diferente da que tinham 'antes da casa'. Levar paixão repentina para fora requer antes de tudo maturidade, profundas mudanças internas, aceitação das carências, permitir e reconhecer o espaço de cada um, limitar o próprio Ego e saber dividir. Mas a dificuldade principal para os casais que se envolvem, contudo, ainda é passar dos primeiros meses de fama, período em que o personagem representado na casa desmorona longe das câmeras dando espaço às exigências da vida real de ambos. Na hora em que se começa a conviver com o par "como ele é” a relação tem início de verdade e é a partir daí que se estabelece algum parâmetro para avaliar a longevidade dela. Em contrapartida, como afirma o psicanalista italiano“ Contardo Calligaris", - em seu último livro “O conto do Amor” -, "duração não serve como índice de qualidade em uma relação, seja esta de dois meses, seis anos, vinte anos porque o que importa na vida, o que a faz valer à pena e dar-lhe sentido é a qualidade do que se vive”.
É fácil tudo isso? Certamente que não. O tempo que cada casal viveu/vive a “paixão”, a ilusão ou o “acordo” (cada um denomina como preferir) variou e vai variar sempre de casal para casal pois não existem regras pré-estabelecidas para duração de um sentimento. As relações e sentimentos surgidos e sentidos 'dentro da casa' e que continuaram 'fora dela' podem ser chamados de amor ou paixão? Não podemos afirmar nada, pois cada um sabe o que seu "coração diz".
O certo é que como romântica que sou, assim como grande parcela da população, torço muito para que eles consigam viver suas histórias, aproveitar todo o tempo possível, seja de paixão ou de amor. Não é porque o amor é um sentimento profundo que as pessoas irão terminar seus dias juntos, mas torço para que nunca fujam ou deixem de viver o que sentem pois a felicidade como resultado da vida é a intensidade das experiências vividas, sejam elas positivas ou negativas. Tomara que eles nunca digam que não deu certo pois se tiverem que rir ou chorar por algo, que seja pelo que foi vivido e não apenas sonhado.