"A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás;
mas só pode ser vivida, olhando-se para frente."
(S. Kierkergaard)
Uma trajetória de vida esbarra em uma infinidade de fatores, circunstâncias e acontecimentos que atingem as pessoas de forma muito peculiar. Cada ser é único, com características próprias e veio para esta existência com muito por fazer, por lutar, muito à alicerçar e suportar em brigas diárias e sobreviventes ainda que esquecendo-se de sentir e sorrir ao mesmo tempo. Não, não é fácil...
Vivemos num mundo tão denso, com que objetivo? Lutamos por conseguir o pão, abrigo e poder; e, depois de tudo, em que ficam todos os nossos esforços? Alimentamos o corpo, somamos bens para a satisfação da matéria e como saciamos os desejos da alma diante de tudo que trava e flagela o mundo, todo o santo dia? Onde ficam os sentimentos? Viver por viver, trabalhar para viver e depois morrer, é por acaso algo maravilhoso? Em verdade, é tudo muito triste, muito pobre, muito pouco para a satisfação de um coração, de uma alma.. e se faz necessário que cada ser possa esforçar-se ao máximo para compreender o verdadeiro sentido de sua existência, o sentido do sentir, do viver-se.
E com o "outro" então? Muitas vezes encontramos uma amizade, um amor, um companheiro(a) e deixamos a relação cair na rotina, banalizar-se por não lhe darmos o devido valor. Vivemos e passamos a existência insatisfeitos, acomodados, reclamando, procurando desculpas para nossa insatisfação, ora querendo recuperar tudo o que um dia fomos, ora querendo leoamente vir a ser, ora nem..
Encontrar a nossa verdadeira essência, reencontrar o sabor de sonhos que apodrecem abandonados, inúteis e perdidos pelo caminho, requer nova busca. E aí esbarramos no que podemos chamar de rejeição à mudança, ao novo: seria o medo, a insegurança, o comodismo, a falta disso, o excesso daquilo? Somos, ironicamente, verdadeiros enigmas para nós mesmos; enigmas difíceis de decifrar, verdadeiros paradoxos humanos.. Queremos mudanças mas temos "medo" delas! Hesitamos, mesmo quando mudar é necessário. Tendemos a justificar o hábito com as carências e as necessidades da vida quanto mais nos adaptarmos aos "tempos": tempo díficil, tempo violento, insegurança, tempo sem tempo, a falta disso, o excesso daquilo.. de novo. Vivemos uma ausência total de coragem, de fé em si e na vida, embora nos sobre fé em Deus mesmo diante da "infelicidade" do emprego, desemprego, apego, desapego, relacionamentos que sim ou que não, reveses, estresses, enfim. Vivemos nossos dias reclamando e pedindo a Deus que algo de especial aconteça; no entanto, quando as mudanças começam a despontar, nos encolhemos, e muitas vezes, nos afastamos por medo. Há um ditado que diz: "Cuidado com o que pedes...". Em contrapartida, eu citaria outro bem popular, que ensina: “Quem não arrisca, não petisca”. A única certeza após este questionamento é que para muitas pessoas viver lamentando-se é a forma ideal encontrada; afinal, é mais fácil lamentar do que ir em busca dos próprios anseios com atitudes firmes e certeiras. Refúgios mil são encontrados mascarando a falta de força interior e luta exterior dos desejos, a realização e satisfação que merecemos.

Refletindo sobre tudo isso e sobre meus próprios pensamentos, acredito que ainda não tenha vida suficiente para fazer um balanço sério, mas já me sinto à vontade comigo mesma para fazer alguns parciais e é desta forma que me vejo: como uma pessoa que carrega alma e coração de marinheiro, que se instiga pelo novo, pelo diferente a cada dia, sem medo de mudanças, de deixar um rasto de saudade em cada novo lugar que pisar, de recomeçar sempre, com respeito, de conviver bem também com os que agem e pensam diferente. Buscar o novo sim, começar de novo, nunca me assustou e me impulsiona a viver.. Eu penso que em qualquer mudança, seja ela qual for, o importante é nunca perdermos de vista o que somos como seres humano, valermos pelo caráter, pela personalidade, pela forma de entendermos as oportunidades como um aprendizado constante.
Mudar de casa, de lugar, sacudir a velha poeira, constituir novas amizades, novo lar, novo trabalho, é coisa que assusta a muitos de nós, mas vejo o recomeçar como o motor que impulsiona o caminhar. Saber que já vivemos outras tantas situações e com tantas outras pessoas, nos compõe. Reconhecer que nada foi em vão, que tudo valeu à pena, mesmo nos momentos de contrariedade, é o mais bonito da vida . Não importa quantas e que tipo serão as mudanças em busca de nosso bem-estar, o importante é que sempre deixemos pelos caminhos trilhados o melhor de nós mesmos, que possamos sentir e deixar saudades do tempo vivido, das pessoas que conosco compartilharam seus dias, de nos orgulharmos conscientes de quem fomos, na mais pura essência, em qualquer situação vivida. Saber que sempre ao voltarmos, teremos braços abertos a nossa espera, pois o carinho verdadeiro foi a base de nossa socialização e convivência. Sim, vale à pena começar de novo, viver a vida, sentir seu pulsar, sem medo de ser feliz, porque mudanças fazem parte do processo de estar vivo, porque toda mudança traz em si o gérmen da criação, de energia fluindo a vida. O que não muda está estagnado, sem vida ou pulsação, morto.
E você, pensa e anseia mudar? Quer recomeçar também? O que te detém, o que receia? Obstáculos não nos foram dados para que os superemos? "Eu já estou com pé nessa estrada"...